Poupança

Posted By: admin on Nov 13, 2012 in Formação
pagina_mealheiro1

A poupança tem tido uma situação moral bastante ambígua. Por um lado é louvada como prudência e modéstia, opondo-se aos esbanjadores e perdulários. Por outro parece avareza, acumulando bens materiais que perecem. Nunca se sabe muito bem como avaliar a poupança.

Para julgar o fenómeno é importante compreender os reais contornos, nos seus três aspectos principais. O primeiro elemento é a abstinência do consumo. Quem poupa priva-se de algo. Mas, ao contrário do jejum, existe um aspecto de conservação. Ao amealhar, guarda-se para o futuro o valor de que hoje se privou.

Existe ainda um terceiro ponto, que nasce da distinção entre poupança e entesouramento, algo que Jesus foi dos primeiros a notar, na parábola dos talentos. Aí o servo mau e preguiçoso é castigado por ter enterrado do dinheiro, em vez de, como diz o senhor, «ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros» (Mt 25, 27). Ele entesorou, em vez de poupar.

Assim a poupança não é simplesmente deixar de gastar e guardar o valor. É preciso aplicá-lo de forma produtiva, de forma a que produza juros. A verdadeira definição de poupança liga-se pois aos conceito de capital e investimento. Sabemos bem que para produzir algo não basta trabalho, porque este exige instrumentos. Para os obter é preciso ter algum capital prévio, que se consegue aplicando a poupança. Deste modo a nossa abstinência de hoje, transformando-se em instrumentos do trabalho, gerará mais bens no futuro.

Desde a antiguidade que isto é verdade, mas o sistema moderno conseguiu avanços espantosos precisamente pelo uso de instrumentos cada vez mais sofisticados, a ponto de se chamar «capitalismo» ao seu regime económico, devido à centralidade deste elemento.

Isto levantou outros problemas. Em primeiro lugar, desde que foi condenado como injusto por Aristóteles, o juro sempre foi mal visto pelos moralistas. Em segundo lugar, o capital cria uma separação entre quem faz a produção, o trabalhador, e o dono da operação, o patrão. Esta distinção facilmente dá lugar a abusos.

Em todos estes problemas, a doutrina social da Igreja há muito definiu regras claras e profundas. Primeiro, como princípio fundamental, sempre proclamou a importância da colaboração leal e justa de capital e trabalho na produção. Depois, e ao contrário do Corão que proíbe explicitamente o empréstimo com juros, no Evangelho não existe nenhuma condenação, como se viu. Assim a poupança, depósito, empréstimo e investimento, se forem praticados com justiça e moderação, tornam-se legítimos.

João César das Neves

Economista e Professor

leave a comment