Folhas Soltas

Posted By: admin on Fev 01, 2012 in Formação
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Sinto no coração que vos devo contar uma história.

A história de um menino que gostava de conhecer Deus. Há 29 anos nasceu no seio duma família um lindo menino, o primeiro filho dum casal. Muitas das noites deste bebé eram passadas a chorar, de modo que a mãe já não sabia o que havia de fazer. As idas ao médico eram uma constante devido às otites que o menino tinha com muita frequência, até que, um dia, uma dessas otites evoluiu de tal forma que foi descoberto que o menino estava surdo, não se sabendo, ao certo, se foi de nascença ou derivado das otites. Só Deus sabe o desígnio que quer para cada um de nós. O desespero assolou a família. Até hoje, não tive coragem de perguntar a esta mãe se ela questionou Deus sobre o porquê de ter um filho surdo. Penso que sim, que deve ter questionado, mas o acreditar em Deus continuou lá no fundo, apesar da revolta.

Ao fim de dois anos, esta família soube que ia ter outro bebé. O medo apoderava-se da mãe, porque receava que a menina fosse surda, mas, mesmo assim, arriscou. Quando a menina nasceu, o menino ficou muito admirado e, como não falava, tentou tocar nos olhos da irmã. A comunicação entre os dois começou logo ali. Este menino de que vos falo na terceira pessoa é meu irmão de sangue. Quando me questionam como comunicava com ele em pequena, solto uma enorme gargalhada , porque, para mim, esta pergunta é absurda, pois nunca tive dificuldade em comunicar com ele, mesmo não sabendo Língua Gestual Portuguesa, nessa altura. A comunicação é algo inato, o corpo comunica, eu não preciso de falar para comunicar.

Deve ser por isso que gesticulo tanto com as mãos. É algo que faz parte de mim e faço-o de forma inconsciente, porque, desde sempre, quis que o meu amigo das brincadeiras me entendesse. E digo-vos mais: nunca deixamos de ter umas boas lutas por ele ser surdo Mas eu sei que é estranho para as pessoas verem e sentirem isso. Desde sempre me lembro de rezar e falar com ele sobre Deus. Essas conversas intensificaram-se quando comecei a ter formação em Língua Gestual Portuguesa. Antes, sentia uma enorme frustração porque não conseguia exprimir o que era Deus para ele, queria que ele sentisse a importância de Deus nas nossas vidas.

Contudo, mesmo não tendo consciência se ele entendia , cada um de nós rezava à sua maneira.

Era tão normal para mim que ele fosse surdo que nunca pedi a Deus para ele ouvir. Acreditam?

Hoje, mesmo trabalhando no meio religioso, acho que ele tem uma percepção de Deus fora de série, levando-me muitas vezes a questionar a forma como vejo Deus.

Quero dedicar este texto a todos os benfeitores, amigos e anónimos que diariamente se revêem nesta situação e peço que nunca desistam de levar a palavra de Deus ao maior número de pessoas, independentemente do ser humano com que se deparam, porque um presente embrulhado numa velha e amarrotada folha de jornal pode esconder o mais belo dos presentes.

Não julgue pela aparência, o rosto de Cristo pode ser o mendigo que lhe bate à porta ou o Homem que lhe pede esmola na rua. Pense nisso. Mano, obrigada por aquilo que me tens ensinado e por me fazeres ver que, mesmo sendo surdo, isso não foi uma limitação para diariamente tentares conheceres Deus.

Orgulho-me por saber que existem pessoas que procuram conhecer Deus independentemente das dificuldades por que têm passado, mesmo sabendo que, no mundo em que vivem, são poucas as pessoas que sabem a sua Língua para lhe transmitir quem é Deus. O meu irmão é um deles.

Telma Freire

(Colaboradora da Comunidade Canção Nova)

Discussion - One Comment

  • João Marques(fotografo) Fev 04, 2012 

    Que Deus através do seu Santo Poder lhe conceda o que mais falta lhe fizer.

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