Como começaram os Congressos Eucarísticos?

Posted By: admin on Mai 16, 2012 in Formação
Cartaz do Congresso

A Igreja prepara-se para realizar em Dublin, Irlanda, de 10 a 17 de Junho de 2012, o 50.º Congresso Eucarístico Internacional sob o tema “A Eucaristia: Comunhão com Cisto e uns com os outros”. Com a finalidade de prepararmos este acontecimento que deve mobiliar toda a Igreja.

Os Congressos Eucarísticos tiveram o seu início em 1874, em França. A inspiradora foi uma leiga francesa, Marie-Marthe-Baptistine Tamisier (1934-1910), conhecida por Emília entre os amigos. Foi discípula de São Pedro Julião Eymard (1811-1838), fundador da Sociedade do Santíssimo Sacramento (1857) e das Servas do Santíssimo Sacramento (1858), duas congregações (uma de padres, outra de religiosas) dedicadas à adoração permanente da Eucaristia.

Marie Tamisier nasceu em Tours, no ano de 1834. Possuía um temperamento religioso inquieto, dificilmente enquadrável em alguma instituição religiosa existente. Foi aluna da Congregação das Servas do Santíssimo Sacramento, em 1856, onde foi orientada por São Pedro Julião. Tendo tentado várias vezes aderir, sem sucesso, à vida religiosa, acabou por se fixar em Ars, em 1871, e por se dedicar ao incentivo deste novo tipo de devoção, pois demonstrava uma religiosidade eucarística muito fervorosa e uma vontade indomável de expandir essa vivência em acções apostólicas eucarísticas com os jovens.

Depois de ter tido um director espiritual muito cauteloso e rigoroso, capaz de a refrear, Marie Tamisier encontrou-se espiritualmente com monsenhor Gaston de Ségur, que acolheu de imediato os desejos e as sugestões de Tamisier, potenciando-os através da elaboração de um catálogo de lugares onde se teriam dado presumíveis milagres eucarísticos, para aí se desenvolverem acções de religiosidade juvenil em forma de grandes campanhas, amplamente difundidas e alargadas.

O sonho de Marie Tamisier começou a concretizar-se com a ajuda do industrial Philibert Vrau. Acordou-se que em Lille, no ano de 1874 se realizaria uma peregrinação geral a Douai. Depois, em 1876, foi palco de manifestações eucarísticas de multidão a cidade de Avignon, dita guardiã de um milagre eucarístico. Assim se ensaiaram os futuros congressos com o apoio espiritual de monsenhor Gaston de Ségur e a ajuda de Philibert Vrau.

Em 1878, este movimento apresentava já marcas de internacionalização. De facto, as celebrações de Favenay juntaram sobretudo jovens vindos de várias nações da Europa. Apesar disso, não foi fácil para Marie Tamisier impor o seu ideal dos Congressos Eucarísticos. A partir dos finais do século XIX a França voltou a viver circunstâncias ideológicas e políticas adversas ao Cristianismo. Neste contexto, Marie Tamisier dirigiu o seu apostolado eucarístico para a Bélgica. Depois de verificar a ausência de possibilidades para realizar um Congresso Eucarístico nessa nação, referindo-se aos temores do cardeal Dechamps que, apesar de a ter recebido bem, aconselhou a Holanda, devido aos reparos então feitos pelo governo belga à Igreja. Na Holanda, o arcebispo de Utrecht também recebeu bem a mulher dos congressos eucarísticos, aconselhando-lhe, porém, a cidade de Amesterdão para a realização da sua ideia, enviando Tamisier ao bispo Sniters, mas também aí nada obteve. Todas estas formas de actuação da hierarquia católica se tornaram “baldes de água fria” para a enamorada da Eucaristia…

Foi no dia 17 de Janeiro de 1881, junto ao leito de morte do seu director espiritual, monsenhor Ségur, e com o apoio do jesuíta Verbeker, outro grande entusiasta da causa, que Tamisier se decidiu novamente por França para a realização do primeiro congresso eucarístico internacional. A cidade escolhida foi Lille.

O Papa Leão XIII acompanhava à distância estes esforços, apoiando de alma e coração as ideias pastorais de Marie Tamisier. A 16 de Maio de 1881, aprovou o Congresso de Lille e formulou repetidas vezes os melhores desejos para o primeiro Congresso Eucarístico Internacional aí celebrado.

O Congresso de Lille decorreu em meados de Junho de 1881. Os países presentes foram Bélgica, Holanda, Áustria, Suíça, Itália e França, com a maior representação nacional como é fácil de perceber. O grande tema que marcou todo o discurso do congresso foi «A Realeza Social de Jesus Cristo». Participaram quatro cardeais, cinco arcebispos, vinte e quatro bispos de vários países e um total de trezentos e sessenta e três congressistas. Na procissão final participaram mais de quatro mil pessoas. Nessa reunião foi decidida a criação do Conselho Permanente dos Congressos Eucarísticos Internacionais, que haveria de organizar os futuros eventos. Monsenhor Ségur, que tanto amou e apoiou esta iniciativa, já não pode participar devido à sua morte.

Por causa do êxito de Lille, os Congressos Eucarísticos espalharam-se pelo mundo. Assim, após este congresso de 1881, realizou-se, em 1882, o mesmo evento em Avinhão e, em 1883, o cardeal Dechamps pedia um congresso para a Bélgica, realizado em Liége. Em 1885, na Suíça (Friburgo), um eclesiástico foi oficialmente nomeado para a Presidência do Movimento dos Congressos Eucarísticos. Referimo-nos a Mermillod. O Congresso de Friburgo alcançou, pela primeira vez, plena publicidade em toda a Igreja.

A primeira vez que interveio um delegado pontifício foi no Congresso de Jerusalém, em 1893, sob a Presidência do cardeal Jangémieux. Este congresso revestiu-se de grande interesse para o Papa pela presença das Igrejas Orientais, pois participaram nele 50 bispos latinos e 18 bispos orientais uniatas.

Estava de facto implementado na Igreja Universal mais um dom que levaria ao aprofundamento da fé no mistério eucarístico e à unidade que este mistério gera. A partir da sua experiência espiritual eucarística e do carisma dado a Marie Tamisier, leiga simples, os Congressos Eucarísticos internacionais chegaram até nós. Marie Tamisier, com a sua missão cumprida, preferiu ficar na sombra e não participar nesse órgão. Ainda haveria de ver a sua obra florescer até ao XXI Congresso Internacional, no Canadá.

Cónego Senra Coelho

Diocese de Évora

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