A verdade o liberta

Posted By: admin on Jul 27, 2011 in Formação
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Acredito que um dos maiores desafios que travamos diariamente é assumir ou negar a verdade. Estamos no século da modernidade e a tecnologia, cada vez mais desenvolvida, lança sobre nós as redes que nos penduram entre o social e o virtual, o real ou imaginário. Ter a coragem de optar pela verdade é um exercício que parte das pequenas escolhas e seguem-nos até nos momentos mais importantes da nossa vida. Já sabemos que a verdadeira felicidade tem  o  seu alicerce na verdade, portanto, só consegue ser feliz quem assume com coerência a sua história, seja ela qual for.

Nos atendimentos de oração e aconselhamentos que realizamos na Canção Nova, tenho percebido que, cada vez mais, as pessoas têm dificuldades de assumir a sua verdade. Com isso, tornam-se infelizes, sentem-se presas às situações passadas e, em alguns casos, até ficam deprimidas ou pior: entram no mundo das drogas e dos vicíos, tentando mascarar a dor.

Noutro dia, enquanto atendia uma senhora, percebi que ela falava de maneira superficial e não conseguia expressar-se, o tempo passava e a partilha não fluía. Então, olhei bem nos olhos dela e perguntei-lhe: “Afinal, qual é a sua verdade? O que se passa no seu interior?” Ela ficou surpresa diante da pergunta, desapontada talvez; mas tomou uma linda decisão. Abriu o seu coração! E em meio às lágrimas, aos poucos, foi revelando as suas dores e medos ligados a situações vividas havia mais de 20 anos. As lágrimas lavaram o seu rosto e, certamente, o Espírito Santo, também lavou o seu coração concedendo-lhe uma nova vida a partir daquela experiência. Não é uma tafera fácil encarar a verdade, aliás, muitas vezes, isso é muito difícil, principalmente quando a história é marcada por grandes traumas e dores, mas não há outra saída, para sermos curados, precisamos assumir a nossa história com tudo o que ela traz, dores e alegrias.

Jesus disse aos Seus discípulos: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8,32), ou seja, a condição para sermos livres é conhecermos a verdade. Eu diria conhecermos e abrirmo-nos ao processo de cura a partir do conhecimento. Não é o caso de parar na dor, nem de ir levando a vida de qualquer jeito, Deus quer-nos a viver plenamente e é por isso que Ele nos propõe a coerência como meio para a cura e a felicidade plena. Da nossa parte, precisamos querer ir além. Por exemplo, já parou alguma vez para perguntar quem realmente é? Conhece as suas raízes? Qual é a sua verdade? São Francisco de Assis dizia que o homem vale o que é diante de Deus e mais nada, ou seja: vale a sua história.

O valor que temos não está no carro que possuímos e na profissão que exercemos, tão pouco na imagem que “tentamos” passar para as pessoas. O nosso valor está no facto de sermos o que somos diante de Deus e mais nada.

Já temos uma identidade própria, somos filhos de Deus e não precisamos criar uma personagem irreal para alimentar uma ideia a nosso respeito longe da realidade. Aliás, esta tem sido mais uma maneira de “fugir das dores da vida”, mas, como pode ser livre quem age assim? E se não é livre, como pode ser feliz?

Como cristãos, temos uma responsabilidade dobrada com relação à verdade e isso começa por assumirmos a nossa realidade e a partir dela, testemunharmos a Misericórdia de Deus. Não tenha vergonha da obra que o Senhor já realizou na sua história! Ela, por mais difícil que tenha sido, é muito valiosa, pois é a partir dela que Ele quer agir. “Deus é luz e n’Ele não há trevas alguma“, diz a Sagrada Escritura, portanto, para que a luz de Deus Pai ilumine a nossa vida, precisamos fazer as pazes com os acontecimentos que nos marcam.

“Grande caridade é viver na verdade”, escreve o Papa Bento XVI na sua encíclica “Caritas in veritate“. É certo que precisamos dar mais atenção ao assunto, pois, querendo ou não, nos nossos dias, nós vemo-nos cercados por superficialidades e disfarces. Desde a maquilhagem aos relacionamentos, temos constantemente a oportunidade de fugir da realidade. Está claro que o desafio para viver a coerência é cada vez maior, mas se quisermos alcançar a felicidade, não podemos fugir dele.

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” diz o Senhor, portanto, não tema romper com as trevas da mentira e acolha a luz que brilha a partir da verdade. Siga o exemplo da senhora, a qual fiz referência no início do texto, e tenha a coragem de abrir o seu coração, mesmo que isso lhe custe. Desta forma, verá certamente, que aquela dor já não tem tanto poder sobre si.

Faça hoje a opção pela verdade diante das oportunidades que tiver de escolher e não deixe que a falta de coerência roube a liberdade que o próprio Senhor já conquistou para si na cruz. Termino com um conselho da Beata Madre Teresa de Calcutá: “Acenda a luz da verdade na vida de cada pessoa que encontrar, para que deste modo Deus continue a amar e iluminar o mundo por meio dela e de si.”

Dijanira Silva

Missionária da Comunidade Canção Nova em Portugal


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